Quando nos mudamos para o Peru, uma das coisas que precisei aprender rapidamente foi como funciona a rotina escolar por aqui. Minha filha estuda em Lima e, depois de acompanhar um ano letivo, percebi algumas diferenças interessantes em relação ao sistema que conhecemos no Brasil.
O calendário escolar é uma das primeiras.
O ano letivo começa em março
No Brasil, estamos acostumados a começar as aulas entre o final de janeiro e o início de fevereiro e seguir até novembro ou dezembro. No Peru, o ano letivo começa em março.
Antes do início oficial das aulas, algumas escolas oferecem cursos ou atividades durante janeiro e fevereiro. No primeiro ano da minha filha em Lima, optei por colocá-la nesse período justamente para que ela pudesse conhecer a escola, se adaptar ao ambiente e fazer os primeiros amigos antes do início das aulas.
As férias também funcionam de maneira diferente.
Em vez de um longo período de férias no meio do ano, como estamos acostumados no Brasil, os alunos têm pequenos intervalos ao longo do calendário: normalmente uma semana em maio, duas semanas em julho e outra semana em outubro. O período mais longo de férias acontece entre dezembro e fevereiro.
Para as famílias, isso tem vantagens e desvantagens. Uma semana de férias pode ser suficiente para fazer uma pequena viagem sem precisar organizar um mês inteiro fora do trabalho. Por outro lado, para quem trabalha em horário comercial, é preciso encontrar alternativas para cuidar das crianças nesses intervalos.
Uniforme: uma tradição levada muito a sério
Outra diferença que chama bastante atenção é o uniforme.
As escolas peruanas costumam ser bastante rigorosas nesse aspecto, e muitos uniformes têm um estilo que lembra bastante os colégios americanos: camisa social, gravata, saia pregueada e versões diferentes para o verão e o inverno.
No caso da minha filha, o uniforme de inverno continua sendo composto por saia, mas inclui meias mais grossas ou meia-calça.
E não é apenas a roupa que precisa estar de acordo com as regras. A apresentação pessoal também é bastante valorizada.
O cabelo das meninas, por exemplo, precisa estar arrumado. Penteados, tranças, rabos de cavalo e laços fazem parte da rotina escolar.
Isso foi uma adaptação para mim. Sou uma mãe bastante prática e nunca fui muito preocupada em fazer penteados elaborados para a escola. Depois de perceber a importância que a escola dava à apresentação, passei a prestar mais atenção nesse detalhe.
É uma diferença cultural pequena, mas que mostra como cada país tem suas próprias expectativas em relação à rotina escolar.
Horário: das 8h às 15h
Minha filha entra na escola às 8h e sai às 15h, que é um horário bastante comum entre as escolas de Lima.
Para as famílias, isso exige certa organização. Quem trabalha em horário comercial precisa ter flexibilidade para buscar os filhos ou contar com outra pessoa para fazer esse trajeto.
É bastante comum encontrar pais ou babás na saída das escolas. Também percebi que muitas famílias escolhem escolas próximas de casa justamente para facilitar a rotina e permitir que as crianças façam o percurso a pé.
Essa foi outra diferença que achei interessante em relação a São Paulo, onde morar suficientemente perto da escola para fazer o trajeto caminhando nem sempre é uma possibilidade.
Almoço na escola, mas sem necessariamente existir um refeitório
Como os alunos ficam na escola até as 15h, eles almoçam por lá.
Na escola da minha filha, temos a opção de levar a comida de casa ou pedir uma refeição de um restaurante que entrega na escola. Eu costumo preparar a comida dela em casa e colocar na lancheira pela manhã.
Uma coisa que me surpreendeu foi descobrir que os alunos fazem as refeições dentro da própria sala de aula. Isso não acontece apenas na escola da minha filha; existem outras escolas que também adotam esse modelo.
Acredito que isso tenha relação tanto com a estrutura física das escolas quanto com a própria organização da rotina. Em escolas maiores ou de mensalidades mais altas, é possível encontrar estruturas diferentes.
Uma escola sem lição de casa
Talvez uma das diferenças que mais gostei seja o fato de a escola da minha filha não enviar lição de casa diariamente.
A proposta apresentada pela escola é bastante interessante: como as crianças passam praticamente o dia inteiro estudando, as atividades que seriam feitas em casa são realizadas durante o período escolar.
A ideia é que, depois das 15h, o tempo seja dedicado à família, ao descanso e às atividades fora da escola.
É um conceito que faz bastante sentido para mim. Ao mesmo tempo, percebi que existe um lado que exige atenção dos pais: sem a tradicional lição de casa, é preciso procurar outras formas de acompanhar o que a criança está aprendendo.
Eu mesma só percebi que minha filha estava com dificuldade em matemática quando ela comentou que não estava entendendo multiplicação. Foi então que comecei a olhar com mais atenção o material escolar e percebi que ela realmente precisava de ajuda naquele conteúdo.
Então, apesar de gostar da proposta de preservar o tempo em família, acho importante que os pais encontrem uma maneira de acompanhar o desenvolvimento acadêmico dos filhos.
Simulados de terremoto fazem parte da rotina
Por estar em uma região com risco de terremotos, as escolas peruanas também trabalham com protocolos de emergência.
Assim como no Brasil algumas escolas realizam simulados de incêndio, no Peru são realizados simulacros de terremoto.
Logo no início do ano, os pais recebem orientações sobre os procedimentos e sobre quem está autorizado a retirar a criança da escola em uma situação de emergência.
O primeiro simulacro da escola da minha filha foi especialmente interessante porque mostrou, na prática, algumas falhas no cadastro dos responsáveis. Alguns pais descobriram naquele momento que não tinham incluído corretamente todas as pessoas autorizadas a buscar seus filhos.
E essa é justamente uma das funções desses exercícios: não apenas preparar as crianças e a equipe, mas também mostrar aos pais o que precisa ser corrigido antes que uma situação real aconteça.
Achei uma iniciativa bastante importante.
A proximidade entre casa e escola
Uma última diferença que percebi em Lima é a relação entre a localização da escola e a rotina das famílias.
É comum escolher uma escola próxima de casa e, por isso, muitas crianças fazem o trajeto caminhando.
Para quem vem de São Paulo, isso chama bastante atenção. Em uma cidade tão grande como São Paulo, muitas famílias passam bastante tempo no trânsito para levar e buscar os filhos. Em Lima, pelo menos em algumas regiões, é possível construir uma rotina muito mais próxima.
Afinal, como é estudar no Peru?
Depois de acompanhar a rotina escolar da minha filha, percebo que não existe necessariamente um sistema melhor ou pior. Existem escolhas diferentes, influenciadas pela cultura, pela estrutura das cidades e pela maneira como cada sociedade organiza a vida das famílias.
O calendário escolar, os uniformes, os horários, as refeições, a ausência de lição de casa e até os simulados de terremoto são detalhes que parecem pequenos, mas fazem parte da experiência de morar em outro país.
E talvez essa seja uma das partes mais interessantes de viver fora: perceber que coisas que pareciam óbvias para nós são, na verdade, apenas uma das muitas maneiras possíveis de organizar a vida.
No fim, a escola da minha filha acabou sendo também uma das formas de conhecer melhor o Peru — não apenas pelo que ela aprende dentro da sala de aula, mas por tudo aquilo que a rotina escolar revela sobre a cultura e o cotidiano daqui.
